Carlezzo Advogados

Notícias

04/02/2019

Problema em registro na Holanda deixa brasileiro sem jogar há 2 anos

Revelado no Santos, atacante Gabriel Costa vive imbróglio com clube europeu

 

Por Alex Sabino, Folha de São Paulo

 

Gabriel Costa treinava no Taboão da Serra em abril de 2017. Ele estava nos planos do técnico Axel e se preparava para ser titular da equipe na segunda divisão do Campeonato Paulista. Foi quando veio a surpresa.

“Não podemos inscrever você”, lhe disse o presidente do clube, Anderson Nóbrega.

O nome do atacante, então com 20 anos, estava bloqueado no sistema de transferências de jogadores (TMS). Gabriel aparecia vinculado ao Westlandia, pequena equipe da 3ª divisão holandesa.

Começava a novela. Quase dois anos depois, o brasileiro continua parado, sem poder trabalhar. Além do Taboão da Serra, times como Montes Claros e Foz do Iguaçu tentaram regularizar sua situação e contratá-lo. Sem sucesso.

“São dois anos já que eu não sei qual é o problema. Falei várias vezes com o clube da Holanda, disseram que iam mandar minha liberação. E nada. Não consigo jogar. Quando fui para o Foz do Iguaçu fiquei até com vergonha. Não quis que eles me pagassem nada porque eu não tinha como ajudar a equipe em campo”, diz Gabriel, que mora em Maringá, no Paraná, à espera de uma solução.

A confusão quanto ao seu registro não é o único aspecto pouco usual na trajetória do atacante. Aos 22 anos, tecnicamente, ele nunca jogou futebol profissional. Revelado pelas categorias de base do Santos, passou por Jabaquara e Grêmio Prudente. Fez teste por três meses no Wolfsburg, da primeira divisão alemã, e voltou ao Brasil com a certeza de que havia sido aprovado e receberia oferta de contrato. Não aconteceu. “Até hoje não sei o motivo”, afirma.

Ele ficou seis meses no Academica Clinceni, da segunda divisão da Romênia. Teve pouco espaço e retornou.

Foi quando apareceu a chance de ir para a Holanda. No Westlandia, diz ter ido bem. Foi titular e o time brigava para subir. Gabriel tinha contrato amador, já que a equipe era semi-profissional.

Ele não recebia o salário do clube. Por causa de sua situação de trabalho como imigrante, a equipe depositava o dinheiro na conta de uma empresa do responsável pela intermediação da sua ida à Europa. Este lhe repassava uma quantia, até que o brasileiro descobriu que o empresário ficava com parte do salário.

Gabriel pediu para ser liberado, e o Westlandia deu a carta de rescisão. “Foi uma saída amigável. Não briguei com ninguém. Não sei por que isso está acontecendo.”

Os clubes do Brasil que tiveram interesse em contratar Gabriel procuraram a CBF. A resposta foi sempre a mesma: ele não tem condições de atuar até que a federação holandesa autorize a transferência. Para isso, é preciso que o Westlandia concorde.

“O Gabriel veio para um período de avaliação e foi aprovado. Ele tinha documento escrito em holandês que seria a rescisão, mas a CBF nos disse que o clube da Holanda não estava liberando. Nunca tivemos um problema como esse. Sabemos que a transferência internacional pode demorar um pouco por causa do trâmite. Mas um caso como esse, nunca vimos”, disse Anderson Nóbrega, presidente do Taboão da Serra.

O atacante cansou de mandar e-mails para o Westlandia pedindo que fosse liberado. Tentou telefonemas também, mas se desentendeu com o diretor Steven van Evren. Desde então, não obteve mais respostas.

“Depois do Westlandia, ele acertou com a KNVB [federação holandesa] para jogar em um clube da Bélgica. Ele precisa ir para lá e ser liberado para jogar no Brasil. Esta é a última mensagem que enviamos sobre Costa. Para o Westlandia, é um assunto encerrado”, escreveu van Evren, em contato com a Folha.

Gabriel reconhece que foi para a Bélgica, mas ficou apenas uma semana, porque a equipe não tinha dinheiro. Ele assegura não ter assinado nenhum documento.

Consultado pela Folha, o secretário do Westlandia, Ronald Visser, deu resposta diferente da enviada pelo diretor.

“O senhor Costa jogou pelo clube e saiu de maneira amigável. Entendo que ele precisa de permissão [para transferência] se quer assinar com um time brasileiro. Não temos nenhum pedido de transferência e ninguém nos mandou nada. Se tivesse acontecido, teríamos concordado sem hesitar”, afirma ele.

A reportagem entrou em contato com a federação holandesa, mas, após uma semana, a entidade não conseguiu dar resposta definitiva sobre a situação do brasileiro.

“Se conseguirmos descobrir o que aconteceu neste caso, entraremos em contato”, diz e-mail de Marc Tils, da assessoria de imprensa.

A CBF informa não ter registro de pedido oficial de transferência de Gabriel Costa, mas confirma que seu vínculo está preso com o clube holandês. A solução possível para ele é apelar à Fifa.

“Tem de mostrar que o clube está retendo o registro do atleta. É praxe da Fifa liberar o jogador nesses casos. A não ser que apareça algo muito sério, a Fifa dá a liberação em cerca de 30 dias. Depois, caberia ao clube holandês, caso se sinta prejudicado, reclamar”, afirma Eduardo Carlezzo, advogado especializado em justiça desportiva.

O problema é Gabriel não ter dinheiro para contratar um advogado que atue na Suíça. “É impossível para mim [pagar] os honorários. Estou sem clube há dois anos.”

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2019/02/problema-em-registro-na-holanda-deixa-brasileiro-sem-jogar-ha-2-anos.shtml

« voltar